Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Um adeus a Sorekine!

Nunca esqueço o dia em que te vi pela primeira vez.
Seu cabelo laranja, desgrenhado e sujo, sua dança estranha, suas citações que iam da revista Bravo ao Codex Calixtinus. Você muito doida de vinho e maconha. Convenhamos, nem a memória mais fraca do universo esqueceria tanta excentricidade num único ser.
Aquele era um tempo de liberdades exageradas que resultariam numa geração estéril, débil e financeiramente dependente. E você era a nossa Sharon Stone Joplin da Silva. Zero de convenções, nada de pudores. Você era excessos e horrores.
Se os seus planos artísticos tivessem dado certo sua carreira teria sido meteórica. Não deram, mas, meteórica foi a sua passagem por aqui.
Hoje eu não trouxe flores, pois tive o cuidado de entregá-las enquanto você podia vê-las e sentir o seu cheiro. Nem apareci no dia em que te fecharam nessa casinha pequena, com arquitetura indescritível. Porque eu queria você e seus excessos, seus horrores e erros de postura e de português.
Mas, hoje eu estava aqui perto e resolvi aparecer. E é estranho saber que você está aqui e que aqui impera um silencio amedrontador.
Ah, eu trouxe a minha gaita. Vou soprar algumas notas de blues. Vamos subverter esse silencioso sistema, afinal subverter sistemas era a sua especialidade, né merrrrrrmo?!

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

A hibernação de "R"

Uma amiga me acusou de ter a feia mania de colocar apelidos em todo mundo. Enquanto “R” hiberna feito um urso gordo e sonolento numa toca qualquer do antigo valo ela está flertando com um artista plástico a quem eu carinhosamente chamo de pintor de roda pé. Ela, enfurecida me dizia que ele é um artista completo e eu dizia: Plástico, de vidro, de madeira e ela se apressava em colocar; de cristal!
Eu sempre vejo coisas onde não tem nada e a boa notícia é que eu não estou sozinho. Cristal? Eita pegou pesado. Mas, é isso que o amor faz com a gente e a falta dele também, no meu caso é claro. O curioso é que o mesmo objeto de observação recebe valores tão distintos. Pra mim o rapaz é até esforçado, pra ela o Michelangelo que se cuide, que capela cistina que nada, o roda pé é que está em alta.
E esse mosaico doido chamado vida, vai conferindo historinhas como essa por todo o globo. E dependendo de que lado você está o brilho será mais intenso, as cores mais vibrantes e tudo será grande. Até os pintores de roda pé.

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

UTI!

A tia de branco me pediu pra escrever tudo. Me disse que era psiquiatra e que isso iria me ajudar.
- Crie um diário e relate as coisas que lhe chamarem a atenção. Disse ela com ar de sabedoria e com a certeza de que eu não tinha muitas alternativas.
Cara quão mórbida pode ser a curiosidade humana, eu ainda nem morri e esse abutre de branco já quer consumir as minhas memórias.
Pois bem senhorita, venha e conheça os meus pensamentos, entre sem pudores na minha intimidade. Só espero que você seja boa o suficiente pra fazer delas uma tese de doutorado.
Tudo aqui é muito branco e o soro cai em gotas e cada gota deveria representar vida, mas, me parece mais um relógio sinistro, um voraz devorador do tempo e tempo e saúde são duas coisas que eu não tenho.
Todos esses tubos, aparelhos, respiradores, macas, facas e bisturis são as armas que tenho pra duelar contra o que me consome. Eu, logo eu, que sempre gostei das armas medievais.
Olho em volta e não vejo algumas coisas que costumavam me acompanhar durante toda a minha vida.
Onde está o meu sarcasmo?
E aquela certeza de que só acontecia com os outros?
Pra onde foi toda aquela coragem e desdém?
E logo aprendo uma lição: tem coisas que morrem antes da morte chegar.
O inevitável filminho da minha vida começa a ser exibido em branco e preto. Mas, o controle não está comigo. Não tem pausa, avançar, voltar, nem gravar de novo.
Sim, tem coisas das quais me arrependo!
Sim, me arrependo também de coisas que não fiz!
E em vão suplico mais uma chance...
Trimmmmmmmmmmmmmm, trimmmmmmmmmmmmm!!!!
O despertador me sacode pra mais um dia “comum”
Dias comuns não existem, pessoas comuns, menos ainda.
Lavei o rosto, desci pro café e sorri pro ovo frito.
É meu caro quase galináceo, não importa como se morre, importa mesmo é como se vive!

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

A colheita!


O amor é algo grandioso, ousado, sacudido e arriscado. E geralmente não perdoa os covardes e os pune com longos períodos de seca, desdém e uma vida no calabouço.
Na minha estrada eu nunca tive um banquete de amor, apenas migalhas caídas de mãos descuidadas, sobras do amor que alguém desprezou. Mas, a culpa não é do amor e sim minha, pois sou do tipo que teme investir todas as minhas sementes num só solo e me contento com o mínimo das migalhas do caminho.
E ai não tem outra, quando chega a hora de colher é pura matemática. Quem pouco plantou, pouco colherá, quem muito plantou, muito colherá, quem nada plantou que se dane, oras!
Estou aqui observando um vasto campo onde poderia estar o meu pomar e só vejo pó e nada de mar. Não vejo vida nem verdes paragens.
Quando eu era pequeno tinha uma propaganda que dizia: adubando dá!
Não adubei e ninguém deu, OOOOOps!

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Tudo estava bem!


É verdade eu nunca dei muita bola pra essa coisa de arrumação de casa, troca de móveis e aspirador de pó.
E em meio aos meus livros, discos e filmes encontrei sua foto, num dia de sol no calor de Floripa a ilha do amor.
Aquela viagem foi surreal, bacana merrrmo, mas, nós não sobrevivemos a ela e descobriríamos depois que ela (a viagem), foi uma tentativa de ressuscitação de algo que não mais agonizava, já cheirava mal.
Mas, fotos impressas são o meu ponto fraco (mais um)? e a minha memória teimosa só consegue lembrar do que foi bom.
E me diz ai, como é que você vai? fiquei sabendo que se separou... Eita coisinha ligeira essa né? nem disfarço e já quero saber se dá pra rolar um flash back.
Eu tenho a impressão que não mudei em nada, só de endereço e que no antigo deixei a maior parte do meu couro cabeludo.
Foi bom te encontrar, vamos marcar qualquer dia pra tu ir em casa...
Cara, isso nunca acontece "marcar qualquer dia"...
Mas, como foi bom te ver!

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Reincidência!

Eu aprendi a não ter cuidados para evitar o amor.
Deixo que ele venha, me atropele e me atropele de novo, quantas vezes ele quiser. Pois só assim, cheio de hematomas e dores eu me sinto vivo, ou melhor, me sinto no papel para o qual fui criado: Amar.
Se você pudesse enxergar a minha alma hoje veria apenas as ataduras, a boca, o nariz e um par de olhos sedados pelo amor. Os olhos aliás, esses você pode ver sim e eles estão gritando.
E é assim todo arrebentado como se uma locomotiva me tivesse jogado longe dos trilhos da vidinha pacata e comum dos não amantes, que caminho torto, manco, quase mutilado de volta a conhecidos braços que outrora me afagaram.
Calma benzinho tô indo... É o calcanhar que tá doendo. Antes era o cotovelo.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Da tundra ao páramo!

Vivendo como se estivesse em uma máquina de lavar, num daqueles processos que tem bastante caldo e depois centrifugação, agentes quimicos e altas temperaturas, ela arrumava a sua mala, cansada, fatigada, cheia de toda aquela tola excelencia que tudo a sua volta exigia.
Gaveta após gaveta ela ia abrindo e de lá lembranças de uma parca felicidade lhe acenavam em sorrisos amarelados de uma gente mal vestida.
O tempo passou, passou pra todos e a impressão que se tinha é que uns fizeram melhor proveito dele do que outros.
Pegou papel e caneta e esboçou um bilhetinho azul.
Um copo, gelinho e uísque, pronto! on the rocks... Fumou, porque nessas horas fumar faz bem!
Desistiu do bilhete por achar que ninguém se interessaria pra onde ela estava indo, se pro Alaska ou pra forca. Ninguém se interessa por ela.
As lágrimas lhe faltaram, por falta de força, ou por achar que nem isso valeria a pena. Mas, criou coragem, voltou ao bilhete e escreveu assim:
A quem interessar possa:
Não me chamo mais Adelaide e nem moro mais aqui. Essa mala, também não a quero mais. Não são minhas essas coisas e eu muito menos sou delas.
Um ok pra você Frederico, você sempre esteve certo, ufa! que alivio...
De tanto lhe avisar que esse homem não prestava hoje me sinto culpada por seu marido lhe bater Fernanda, desculpe.
No mais, tudo foi um enorme engano. A coisa toda saiu do eixo logo cedo. Por isso mesmo, vou recomeçar. Afinal, estou com 102 anos apenas e tenho muito o que fazer.
Com amor, uisque, cigarro e rancor.
Louis Lane.

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Delírios em profusão!

Das tantas noites mal dormidas,
Dos rios de suor que transbordei,
Das batalhas que lutei,
As que ganhei e as que perdi.
Do vinho que tornou tudo suportável,
Das estradas percorridas em vão,
Da falta de fé e do excesso de pão,
Das cordilheiras, corredeiras e do pó,
Sou só eu, só eu, só.
Das multidões que me serviram de refúgio,
Dos grãos de areia, da praia de Candeias,
De mais acima e um pouco mais além.
Do norte ao sul, no leste, no oeste e no faroeste.
De onde for,
De onde vier.
Bate-me, abate-me!
Dos passos que me trouxeram até aqui.
Dos meus delírios em profusão.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Aqui Jaz, logo ali Jazz!

Venho aqui lhes comunicar que morri.
Descobri ontem que vago vida a fora feito alma penada, favor não confundir com zumbis, pois, esses emitem sons, fazem cara de mal e assustam as pessoas, eu não, eu sou uma espécie de Gasparzinho, só que sem a graça do simpático albino voador.
Mas, eu morri!
Morri quando desisti dos meus sonhos, quando dei ouvidos as criticas descabidas, quando deixei que os problemas escrevessem a minha história, quando não percebi o amor, o sorriso e a flor.
Morri todas as vezes que quis cumprir a lei a qualquer custo, quando ignorei o drama alheio, quando me enchi de mágoa e rancor, quando gastei meu tempo tentando revidar em quem me bateu.
Morri quando aceitei as conseqüências como perpétuas, quando desisti de lutar, quando me vi frágil, fatigado e muito longe de casa e daquilo onde eu esperava estar.
Morri lenta e indolormente...
Morri de covardia, de estupidez e empáfia. Morri de medo e de vergonha, morri a cada gole e também morri na falta deles. Morri no silêncio, no barulho e no descaso. Morri e não fui chorado, nem bebido, antes, duramente criticado.
Hoje meu rosto é pálido, meu cheiro é ruim, meus olhos sem vida e eu, eu não sinto o aroma das mais belas rosas.
O que eu faço das 24 horas de cada dia? Me apavoro com elas, as desperdiço, uso-as de maneira irresponsável.
Mas, só ontem eu percebi que havia morrido e isso me deu uma saudade danada da vida.
Fiquei lembrando quando o gesso do fatalismo não me servia não me afetava. Lembrei até de como eu gostava de desafios e um pouco antes de como eu os provocava.
Lembrei das minhas conversas com a lua e de quando contava estrelas na praia na companhia de alguém querido.
Lembrei que é São João e o cheiro do milho invadiu as minhas putrefatas narinas. Me vi dançando uma quadrilha arretada, casando, sendo o padre ou simplesmente numa calça com remendos estranhos e modernos.
Senti a leveza da vida como sentem os miúdos, os pequeninos, as crianças...
Ah, eu quero renascer, ressuscitar, voltar a viver!
Quem quer que tenha sido, por favor, devolva os meus sonhos. Pois entre ser confundido com um chato ou um bobo eu prefiro o bobo.
Aromas e paladares surgem em meu nariz e boca. Revisito o espelho e percebo centelhas de vida a minha volta, as costas estão leves, vou voar, vou voar...
Não posso lamentar o meu tempo de necrópole, isso seria perder mais tempo, agora eu vou mesmo é viver!

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Pedras não dão leite!

Subestimar alguém é uma atitude muitas vezes catastrofica e superestimar é tão danosa quanto.
Pra um cara como eu que insiste em viver a vida nos extremos cometer esses erros é como ir ao shopping comprar um All Star preto com estrelas brancas, ou seja, molinho.
Desnecessário dizer que vivo quebrando a cara tanto num lado como no outro, pois subestimados vivem me surpreendendo e os super...
Aliás, essa coisa de super é bem legal no cinema e nos gibis. Aqui na vida real não funciona muito bem.
Outro dia falei aqui sobre ser surpreendido e disse que gosto disso, mas, quando você espera algo a mais e vem bem menos é o tipo de surpresa que eu dispenso.
Por outro lado a vítima da minha super expectativa é um ser injustiçado porque muitas vezes nem queria ser considerado super, mas, o papai aqui é quem manda e de repente você é super e pronto! E logo em seguida você é sub e pronto também oras!
Estou custando a entender que essas categorias não cabem no nosso mundo, humanos são complexos e nem um milhão de anos será capaz de nos explicar. E nem três milhões de anos seria suficiente pra eu entender os humanos. Porque também não faço a menor idéia de quem serei no dia de hoje.
Homo sapiens?